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PEC 65 do Banco Central: o que é e o que muda na prática para você?

Mário Melo
30 de julho de 2026
9 min de leitura
PEC 65 do Banco Central: o que é e o que muda na prática para você?
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Resposta direta: A PEC 65/2023 é uma Proposta de Emenda à Constituição que busca dar autonomia orçamentária e financeira ao Banco Central do Brasil. Na prática, isso significa que a instituição passaria a gerir seus próprios recursos para manter o funcionamento diário sem depender do orçamento geral do governo federal nem sofrer com bloqueios de verbas.


O objetivo da proposta é garantir que o Banco Central tenha verba suficiente para manter serviços essenciais, como a operação do Pix, o combate a fraudes e a fiscalização de bancos públicos e privados. Segundo relatórios do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, a falta de verba própria vem reduzindo a fiscalização do sistema financeiro e dificultando a realização de concursos públicos.


Essa mudança não transforma o Banco Central em uma empresa privada nem retira a fiscalização do Congresso Nacional e do Tribunal de Contas da União (TCU). Cada situação depende do texto final aprovado pelo Poder Legislativo e da análise individual das regras aplicáveis aos servidores e cidadãos.


O que é a PEC 65 do Banco Central e por que ela foi criada?


A PEC 65/2023 é um projeto de lei que altera a forma como o Banco Central do Brasil financia as suas atividades administrativas. Hoje, o órgão possui autonomia operacional para definir a taxa básica de juros, mas ainda depende do orçamento do governo federal para pagar despesas básicas, como contas de consumo, tecnologia e contratação de pessoal.


Essa dependência orçamentária gera vulnerabilidades no funcionamento da instituição. Quando o governo federal faz bloqueios de verbas no Orçamento Geral da União, o Banco Central também é atingido. Isso causa atrasos em sistemas digitais, limitações na fiscalização bancária e falta de pessoal por escassez de concursos públicos.


A proposta busca corrigir essa falha ao dar independência financeira para o órgão organizar suas próprias contas. Em avaliações recentes do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, especialistas apontaram que a falta de verba própria compromete a rapidez com que a instituição supervisiona o sistema bancário brasileiro, recomendando a autonomia orçamentária como prioridade.


Como o Banco Central vai pagar suas despesas com as novas regras?


O texto do parecer aprovado na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado prevê que o Banco Central seja custeado por receitas próprias, vindas do rendimento dos seus ativos financeiros. Isso significa usar os ganhos gerados pelo seu próprio patrimônio para bancar a sua estrutura interna.


É importante esclarecer que o dinheiro gerado por esses ativos não vira orçamento para gasto de forma automática. A capacidade de financiamento do órgão vai depender do resultado líquido do seu balanço, ou seja, da sobra real após o encontro de contas entre o que ele tem a receber e o que precisa pagar.


Atualmente, o orçamento de funcionamento administrativo da instituição gira em torno de R$ 6 bilhões de reais por ano. A mudança proposta reconhece que uma autoridade monetária possui dinâmica financeira diferente de uma repartição pública comum, sem que isso represente uma autorização para gastos descontrolados.


A PEC 65 pode incentivar a alta dos juros ou supersalários?


Não existe incentivo no texto aprovado para que a instituição aumente a taxa básica de juros (Selic) com a intenção de arrecadar mais dinheiro. Na realidade, o Banco Central tem mais compromissos financeiros atrelados à taxa de juros do que rendimentos vinculados a ela — cerca de R$ 4 trilhões de reais em passivos contra R$ 2,8 trilhões de reais em ativos.


Por causa dessa estrutura, quando a taxa de juros sobe, o resultado financeiro do próprio órgão piora. Portanto, subir juros reduz os recursos do Banco Central em vez de aumentá-los, o que afasta o risco de decisões voltadas a aumentar receitas próprias.


Em relação à folha de pagamento, a proposta mantém o teto remuneratório constitucional, que impede o pagamento de supersalários ou reajustes automáticos. As remunerações continuam limitadas pelas regras do funcionalismo público federal, sem margem para aumentos desregulados.


Quais são as travas de controle e fiscalização sobre os gastos?


A autonomia proposta pela PEC 65/2023 não significa liberdade irrestrita para gastar dinheiro público. A versão atual aprovada no Senado criou quatro camadas sucessivas de proteção e controle sobre as despesas da instituição.


A primeira trava é um limite fixado por lei complementar para o crescimento das despesas públicas, tendo como referência para gastos com pessoal a inflação oficial (IPCA) acrescida de até 2,5%, salvo se houver autorização expressa do Senado Federal. A segunda trava é a aplicação rigorosa do teto salarial do funcionalismo.


A terceira camada exige a aprovação prévia das contas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), formado pelos ministros da Fazenda, do Planejamento e pelo presidente do próprio banco. Por fim, a quarta trava é a deliberação do Senado Federal, mantendo a fiscalização do Congresso Nacional, do Tribunal de Contas da União (TCU) e do Poder Judiciário.


Como fica o repasse de dinheiro do Banco Central para o Tesouro Nacional?


A aprovação da proposta não acaba com a transferência dos lucros da instituição para o Tesouro Nacional. A legislação que disciplina o repasse de resultados positivos e a cobertura de perdas (Lei 13.820/2019) continua valendo para proteger as contas públicas.


Nos últimos 18 anos, o Banco Central gerou um resultado positivo médio de R$ 59 bilhões de reais por ano e repassou mais de R$ 1 trilhão de reais para a União. Esse dinheiro ajuda o governo federal a equilibrar suas contas e pagar a dívida pública.


Além disso, as críticas de que a mudança provocaria um salto explosivo na dívida pública decorrem de confusões estatísticas entre dois indicadores diferentes. Na Dívida Líquida do Setor Público, o efeito real estimado é de apenas 1 ponto percentual do Produto Interno Bruto (PIB), tratando-se apenas de uma reclassificação contábil, e não de um prejuízo financeiro real.


O que muda na prática para o cidadão e para os servidores públicos?


Para você que utiliza o sistema financeiro diariamente, a mudança busca garantir estabilidade em serviços como o Pix, a circulação de cédulas e moedas e a segurança dos dados bancários. Sem cortes bruscos de orçamento, os sistemas de tecnologia do órgão ganham proteção contra paradas e falhas técnicas.


Para quem pretende prestar concurso público ou já atua na instituição, a autonomia orçamentária reduz os riscos de congelamento de vagas e cancelamento de certames. A escassez prolongada de pessoal vinha prejudicando a fiscalização de bancos e administradoras de cartão de crédito.


A instituição permanece sendo uma entidade pública de natureza especial pertencente ao Estado brasileiro. Ela preserva o seu poder de polícia para aplicar multas, punir irregularidades do mercado financeiro e proteger o consumidor contra abusos praticados por instituições financeiras.


Perguntas frequentes


O Banco Central vai virar uma empresa privada com a PEC 65?


Não, o Banco Central não será privatizado. O texto aprovado define a instituição como uma entidade pública de natureza especial que continua pertencendo integralmente ao Estado brasileiro.


O órgão mantém suas funções públicas, o poder de aplicar punições e multas no mercado financeiro e permanece sujeito à fiscalização do Congresso Nacional e do Tribunal de Contas da União.


A PEC 65 vai aumentar os impostos cobrados da população?


Em regra, a proposta não cria nenhum novo imposto nem aumenta as alíquotas das contribuições existentes para os cidadãos brasileiros.


A intenção do projeto é fazer com que a própria instituição utilize receitas geradas por seus ativos para cobrir despesas de funcionamento, sem necessitar de verbas vindas dos impostos arrecadados pelo governo federal.


Haverá novos concursos públicos para o Banco Central?


Sim, a tendência é facilitar a realização de novos concursos públicos após a consolidação da autonomia financeira.


Como o órgão atualmente sofre com a falta de pessoal e bloqueios de verbas federais, a autonomia permite planejar contratações com base na real necessidade do serviço de fiscalização.


O Banco Central deixará de repassar seus lucros ao governo federal?


Não, a regra de repasse dos resultados positivos para o Tesouro Nacional continua válida conforme previsto na legislação atual.


As transferências continuam ocorrendo após a composição das reservas necessárias para absorver oscilações financeiras, preservando o equilíbrio das contas públicas do país.


Quem vai fiscalizar o dinheiro gasto pelo Banco Central?


A fiscalização continuará sendo feita por múltiplos órgãos de controle externos ao Banco Central.


O Conselho Monetário Nacional, o Senado Federal, o Tribunal de Contas da União e o Poder Judiciário manterão poder total para examinar, aprovar e julgar os gastos da instituição.


A proposta pode provocar aumento na taxa de juros Selic?


Depende das condições econômicas do país, mas a PEC 65 não cria nenhum motivo financeiro para que a instituição suba os juros.


O Banco Central possui mais dívidas atreladas à taxa Selic do que investimentos rentabilizados por ela, de modo que aumentar os juros piora o resultado financeiro do próprio órgão.


Conclusão


A discussão sobre a PEC 65 do Banco Central envolve definir a melhor estrutura institucional para garantir o funcionamento da autoridade monetária do Brasil. O texto do substitutivo aprovado na Comissão de Constituição e Justiça do Senado busca conferir independência de custeio sem afastar os mecanismos de fiscalização pública.


A medida visa proteger serviços essenciais como a fiscalização do mercado financeiro, a operação contínua do Pix e o planejamento de recursos humanos. Todos esses pontos passam pelo controle prévio do Poder Executivo, aprovação parlamentar e auditoria do Tribunal de Contas da União.


Como alterações constitucionais dependem de debates em plenário e votações em duas casas legislativas, é fundamental acompanhar o andamento da proposta. O cidadão e o servidor público devem verificar as regras definitivas aprovadas para compreender o impacto em seus direitos e na prestação dos serviços públicos.


Próximos passos


  • Acompanhe a tramitação da PEC 65/2023 diretamente nos canais oficiais do Senado Federal e da Câmara dos Deputados.
  • Se você é servidor do Banco Central ou estuda para concursos da área financeira, verifique o edital e a legislação atualizada aplicada ao seu caso.
  • Caso enfrente problemas com serviços financeiros ou precise entender seus direitos perante normas do Banco Central, reúna comprovantes e contratos bancários.
  • Procure orientação jurídica especializada em Direito Administrativo ou Constitucional para analisar o impacto de reformas estruturais na sua carreira ou no seu negócio.

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